Sunday, 13 February 2011

Joaquim de Oliveira - Review of Alberto de Menezes Rodrigues's “Caminhos de Luz" (1958)

Não resta dúvida de que Goa atravessa presentemente uma profunda crise de ordem cultural. Estamos convencidos de que esta crise em razão de múltiplos factores, tem um carácter transitório, mas importa denunciá-la com propósitos objectivos no plano intelectual. Nas artes, nas letras, no teatros, nos próprios e hesitantes programas da rádio, etc., reflecte-se notoriamente um estado de coisas que bem merece ser encarado superiormente no sentido de maior elevação de tais actividades culturais. Goa não é só paisagem, ruínas, fotografia; observa-se a luta dos que trabalham ao longo das praias, dos cais, das minas, das extensas campinas desta Goa exuberante. Existem problemas locais de grande importância que estão à espera de ser objectivados. Em que buraco se meteram os poetas, os escritores e artistas capazes de nos dar a vida do homem goês?

O último livro que me foi enviado não foge à regra das considerações expostas. O facto de o Sr. Alberto de Menezes Rodrigues classificar Caminhos de Luz como “novelas” não significa que as suas composições realmente o sejam. O primeiro quesito que um escritor deve ter presente é, pelo menos, o conhecimento dos géneros literários. Um romance, uma novela e um conto têm a sua arquitectura própria. Foram novelistas o nosso Camilo, contistas um Tchecov, um Maupassant, uma Catarina Mansfield, etc, e são actualmente extraordinários contistas e novelistas um Hemingway, um Saroyan, um Caldwell, um Steinbeck. Todas a novelística, desde a sua origem até ao presente, segue uma linha evolutiva de que é preciso ter em conta as suas principais coordenadas. É isto que o Sr. Alberto Rodrigues parece ignorar, de contrário não chamaria novelas às suas hesitantes composições buriladas ao jeito de uma Rosa ao Adro... Chamasse-lhe narrativas, lendas, etc, e a coisa escapava. A primeira composição “Almas plenas de sol” quase se encaminhava com uma novela no primeiro andamento; mas o autor perdeu-lhe o fôlego, rematando-a com digressões na paisagem e sem conflitos de maior. De resto, quando a realidade é produto de uma imaginação de gabinete ou mero quadro alegórico com fins moralísticos (o caso de Roberto, p. Ex.) torna-se-lhe difícil a sua estruturação ficcionista, ainda que queira imprimir-se-lhe um cunho de veracidade.

Isto quanto à forma e técnica do livro do Sr. Rodrigues.

Quanto ao fundo... “Caminhos de Luz” visa a intuitos apologéticos no âmbito da problemática católica. Em vez de se colocar à margem da obra como qualquer escrito imparcial, transferindo as suas ideias ou teses para os personagens, o autor caminha com eles num plano perfeitamente simétrico. É isto o que se chama arte no serviço, aliás em desacordo com certos defensores de uma Arte Pura, com exclusão de propaganda. Mas tais doutrinadores não têm razão, pois que a arte serve as ideologias (politicas, religiosas, etc.) e consequentemente, o homem. O que pode discutir-se ´´o valor das ideologias, seu processo de divulgação, contradições, etc. Sob este aspecto não cabe aqui essa destrinça; temos de observar, no entanto, que o autor força bastante a nota apologética, traduzindo mais propaganda que arte. Tanto o ecletismo de Roberto como o ateísmo do Dr. Mário são de um simplismo ingénuo, inconcebível. Um grande médico, homem de muito carácter como se diz, embrenha-se num sistema filosófico ateu. Isto não impede que a sua vida seja de alta dignidade e coerência; mas, por motivos de casamento, converte-se de um dia para o outro, especialmente porque um amigo lhe envia As Grandes Teses da Filosofoia Tomista cuja leitura, automaticamente, o mete no bom caminho que não seguia. Há nisto como se vê, um simplismo a toda a prova. Se o Sr. Alberto Rodrigues algum dia leu O Drama de João Barois (cujo autor de Prémio Nobel morreu há pouco) terá observado que problema humano de uma conversão é mais complexo, exige, pelo menos, uma arquitectura novelística em que o drama de consciência se desenrola num gráfico oscilatório bastante doloroso, e não em queda vertical como o autor o liquidou. Toda a obra literária digna de crédito tende a projectar os problemas quaisquer que eles sejam, num plano universal; ora, se o ateísmo é um problema universal, não é com uma tese local simplista que fica resolvido; de contrário bastaria que o Dr Mário tivesse lido As Grandes Teses da Filosofia Tomista mais cedo, o que muito bem poderia ter feito quando andou pela universidade e se interessou pelos problemas filosóficos.

Devemos ainda notar que as narrativas de Caminho de Luz estão eivados de artificialismo (de que as cartas são exemplo), há falta de vivência humana e de densidade artística para que se imponha como documento literário de valor. Não lhe descobrimos um fundo caracteristicamente goês, isto é um clima, uma alma, uma cor local específica, embora num ou noutro ponto haja recortes de paisagem tropical.

À parte estas restrições, o livro está moldado numa prosa bastante correcta, enriquecida ainda com localismos de linguagem que mais o valorizam. O Sr. Alberto Rodrigues denota possuir certas facilidades de tema, practica um estilo bastante sugestivo que lhe permitiria a elaboração de obras de mais larga representação humana. Agradecemos-lhe o exemplar enviado e fazemos votos para que nos dê um novo livro – um livro em que a realidade goesa venha à superfície nos seus aspectos mais exuberantes e para a reprodução da qual o autor se encontra apetrechado de qualidades literárias fundamentais.

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