Monday, 20 June 2011

Lúcio Miranda - Adeodato Barreto (1964)

“A educação espiritual do europeau, excessivamente materializado e dominado por essa falsa ideia de progresso, que se baseia numa exagerada mecanização da vida, é um dos principais remédios pela ética de Adeodato para os angustiosos problemas morais do momento actual. Isto é, aliás, o fundamento da doutrina de há muito pregada por uma plêiade magnífica de filósofos e pensadores, tanto orientais como ocidentais, que têm em Rabindranath Tagore e Keiserling os seus expoentes máximos dos dois hemisférios. Na realização desta doutrina não se trata é claro, de renunciar aos benefícios da civilização material regressando ao negativismo apático da velha filosofia búdica ou brahamânica: o que se procura, simplesmente, é temperar os excessos do materialismo europeu, intolerante e sectário, pela influência suavizadora do espiritualismo hindu, estruturalmente contemporizador e universalista. Neste sentido, a corrente reformadora de que Adeodato se tornou prosélito apaixonado, opõe-se ao tradicionalismo integralista de Henri Massis, Charles Maurras e alguns doutrinários portugueses cuja orientação conduz ao dogma da supremecia do Ocidente.

A espiritualização dos ocidentais, como é natural, reduz-se a um problema de cultura e, portanto, tem que ser resolvido por meios pedagógicos e por uma acção humanista, da qual resulte o nivelamento das raças e a comunhão dos povos. Assim se conseguirá um equilíbio social em nada semelhante ao da rasoira igualitária que a civilização europeia tem pretendido impor, pela força, no mundo. A sabedoria indiana, como há pouco se disse, não aconselha a uniformização, mas sim a unidade na pluralidade. Existe, de facto, um certo número de sentimentos e ideais que são comuns a toda a humanidade e que de modo algum contrariam os interesses nacionais, os matizes étnicos e a psicologia individual. É neles, pois, que se deve basear a doutrina da unidade, tendo como meio a sublimação de toda a força espiritual que se possa dizer universal e humana. Nesta ordem de ideias, como é óbvio, excluem-se os nacionalismos exaltados os imperialismos, os racismos, os privilégios de casta, os dogmatismos religiosos, os totalitarismos, aniquiladores de individualidade – e caminha-se firmemente para a democracia e para a paz, a qual, segundo muito bem observa Spinoza, não é a simples ausência da guerra, mas uma virtude que tem a sua origem na força da alma.

Eis o grande ideal pelo qual pugnou Adeodato, amando a sua terra e a dos outros; orgulhando-se da sua raça, sem preconceitos de nobreza; marcando a sua posição de homem livre sem preocupações de hierarquia; espalhando, finalmente, os tesouros inesgotáveis da sua rica espiritualidade, numa consciente obra de dignificação da personalidade humana”

(do ‘Ensaio biográfico e crítico do Prof. Lúcio Miranda, 1940)

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