Wednesday, 1 June 2011

Walfrido Antão - A nostalgia na obra de Vimala Devi (1966)

Vamos tentar uma breve resenha de um acontecimento literário único e original dos últimos 10 anos: a bela colectânea de poemas “Súria” e o livro de contos “Monção” de autoria de uma jovem e lúcida escritora Vimala Devi, maviosa pseudónimo literário de Terezinha Almeida.

Segundo rezam biografias, Vimala Devi nasceu em Britona beijado pelo Mandovi duma família que conta alguns nomes ilustres. Após se ter estreado no jornalismo com colaboração dispersa pelos diários de Pangim, Vimala Devi abalou um dia para os horizontes largos da cultura na Europa. Em Lisboa onde casou e criou lar, publicou este pequeno e delicioso ramalhete de poemas breves como o Amor intitulado “Súria” e mais tarde o livro de contos “Monção”, obras essas de que nos vamos ocupar hoje. Residindo actualmente em Londres donde nos tem escrito pedindo notícias literárias de Goa, Vimala Devi espera publicar em breve um valioso trabalho de informação e critica da literatura goesa.

“Falar de sua obra poética ou melhor do seu “Súria” é falar do moderno na poesia, do génio poético liberto de escolas e de correntes, do “acento fundo de sensualidade mística, de pureza conturbada pela tentação que um Deus é capaz de suscitar na carne de pétalas de uma mulher”, como se lhe referiu João Gaspar Simões. De facto o verso de Vimala Devi é um “estranho, um sério caso poético” pois há nele intimidade quente e confessional, aspiração, lutas, sonho e lirismo. Como exemplo do que dissemos, ouçamos esse momento alto de poesia moderna que leva o título de “Tentação”:

Não ponhas as tuas mãos duras
No meu corpo de pétalas
Como um Deus mudo e fundo
Fulho de dois sóis ardentes
Não, meu Deus, não toques
Esta pele macia e pura!
Esconde a sua ânsia
Cala a tua fúria impotente
Pois a minha carne estremece de fraqueza
Ao contemplar o teu sorriso vasto

Mas o que caracteriza fundamentalmente a poesia de Vimala Devi é a nostalgia, nostalgia de alguém que lembra nos paramos da Poesia de Deus Durga, dos Vedas, do Guita, dos Vénus Drávidas dos xiuntens do Mandovi, de Goa, enfim.

Moderno e autêntico, Suryá é um dos mais belos livros de poesia escritos por uma goesa nos últimos 10 anos e ficará como contribuição válida e autentica.

Ao contrário de “Súria” e talvez porque excelentes poetas dão maus prosadores, Monção é humilde demais como promessa no género “conto”. Embora desbravando o vasto e rico manancial de tipos e situações humanas como a do batcar e mundkar, genro-comensal e exilado, falta à “Monção” aquela transposição ou transcendência de que fala João Gaspar Simões. Tirante esse pequeno defeito literário, Monção e Súria ficarão como obras válidas e definitivas de Vimala Devi.

Irmã no génio poético e na imagem lírica de altos e grandes poetas como Florbela Espanca, Natércia Freire, Orlando Costa, Vimala Devi é no entanto diferente e original pois seu canto é o trinar do moruoni nos espaços da poesia.

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