Thursday, 23 June 2011

Anonymous - R.V. Pandit (1970)

R.V. Pandit é um escritor e uma instituição. Escritor, porque escreve poesias, artigos e contos infantis. Uma instituição porque ele mesmo é o seu editor, financeiro e mecenas.
Há um “background” que felizmente lhe permite acumular estas duas funções. É que Pandit é um abastado proprietário, a quem escrever e publicar é um ‘vício’.

Eu chamei Pandit, um dia em que se o homenageava publicamente por uma comenda internacional, “doido”. E explicando, afirmei que um bom poeta tinha que ser necessariamente doido, ou por outra, uma pessoa fora no normal dos homens. Além de que, todos os grandes idealista da humanidade, desde Budha e Cristo a Gandhi tinham sido considerados doirados, quer pelos seus contemporâneos quer pela posteridade.

Bem sei que esta última afirmação terá sido aceite como sacrílega nesta terra em que muita gente professa “seguir” Cristo ou Gandhiji. Mas se as pessoas que se levantarem nos bicos dos pés para me acusarem de sacrilégio, procurassem na consciência e verificassem quanto do que Cristo e Gandhiji pregaram, elas aceitam na vida prática, se elas dão a face esquerda, quando alguém lhes prega uma bofetada na face direita, ou se eles permanecem não-violentos em pensamento e acção ao fazerem frente a um adversário que lhes procura adiantar poucochinho o cômoro numa várzea ou propriedade, então verificarão que não eu, mas eles próprios consideram implicitamente Cristo e Gandhi doidos, isto é, incapazes de serem seguidos na vida.

Mais tarde, quando expliquei a Pandit mais terra-à-terra porque o considerava “doido”, disse-lhe que por exemplo, ele gastava a sua fortuna em publicar os eus livros de versos, que não tinham saída suficiente para o recompansar. E ele, querendo-me por sua vez convencer da justeza do seu proceder, observou-me que muitos de sua classe tinham no passado e alguns têm mesmo hoje certos vícios, que em nada os abonam, e em que eles gastam e por vezes dissipam toda a sua fortuna. Em comparação, achava que investia o seu dinheiro numa boa causa. Disse-lhe que concordava absolutamente com ele e era por isso mesmo que o chamara “doido”, não no sentido pejorativo de anormal mas no encomiástico de forma de normal, extraordinário.

Foi o “doido” Cristo que disse ser mais difícil a um rico entrar no Céu do que a um camelo passar pelo orifício duma agulha. E contudo, se esprairmos a vista pela sociedade dos homens, em que é que os vemos mais ocupados? Não é em amontoar riquezas e deixar aos seus filhos grandes cabedais, vastos prédios e imponentes edifícios?

Quando vejo esta ânsia danada pelo El-Rei Dinheiro, fico a pensar se os adoradores de Cristo ou de Mamon. De facto, duvido mesmo que sejam crentes, como professam e que acreditem na vida supra-terrena como o céu e o inferno) ou na reincarnação. Porque, se fossem crentes de verdade, haviam de clcular que, no momento de deixarem o invólucro corporal, teriam de dar contas dos seus actos a Deus e receberem das mãos dele prémio ou castigo. De duas, uma.

Também não atinam que uma fortuna mal ganha, além de deixar o seu nome borrado e fedorento, deseduca os seus próprios filhos, que passam a ser na vida ou aldrabões de maior força (e por vezes acabam os dias na inglória) ou dissipadores de fortuna deixado pelos pais e do corpo e felicidade sua e de sua família. Sendo isso assim, que o muito sábio não seria gastar a fortuna em espalhar o bem, em plantar boas ideias, em criar boa poesia, magnificas obras de arte? As pessoas que assim procedem, parecendo a primeira vista doidos, são porventura os mais sábios dentre a classe. Pois ele garantem em vida a sua imortalidade (que é o mesmo que céu) e deixam aos filhos um bom exemplo, para os fazerem bons, grandes e sábios.

Quem conhece hoje os donos de tantas fortunas que se fizeram e ficaram para uma posteridade ingrata e infamada ou que foram dissipadas, não tendo ficado uma só pedra sobre a pedra?
Ao passo que todos conhecem ou procuram conhecer os grandes homens do passado que trabalharam pelo Bem-Comum ou que escreveram boa prosa ou boa poesia ou que deixaram painéis de arte É o céu na terra, mais palpável, incontestado.

De maneira que, voltando a R.V. Pandit, vimos que ele faz bem em despender parte dos seus proventos em criar literatura, e sobretudo na sua e nossa língua materna que carece desses Mecenas – infelizmente são muitos poucos para sair do olvido em que tem estado pelos séculos da dominação estrangeira.

Quando analizarmos a sua obra, veremos como Pandit inspira-se para a sua obra poética nos próprios servos da sua gleba, trazendo assim à discussão o próprio assunto desta parte da minha crónica: a validade da riqueza material versus riqueza espiritual.

Até outra vez, pois.

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